Quinta-feira, Abril 06, 2006

Outras histórias


Os relatos que se seguem são verídicos e foram publicados na cartilha O Direito de Viver, mas a identidade das pessoas envolvidas foi preservada e os nomes são fictícios. Utilizando uma linguagem simplificada, de fácil entendimento, a cartilha explica as leis que protegem os direitos das crianças, conta histórias reais de vítimas e sobreviventes do infanticídio, e já foi distribuída para representantes mais de 50 etnias.

CRIANÇAS GÊMEAS TÊM DIREITO DE VIVER
No ano passado Raimundinha ficou grávida. Ela morava numa comunidade distante no Amazonas. Lá as meninas não têm muito valor. Todo mundo prefere os meninos. Raimundinha já tinha três filhas meninas e estava com medo de ter outra. Se nascesse mais uma menina, as pessoas iam falar muito mal dela. Ela não ia agüentar e ia acabar matando sua filha. Ramundinha passou a gravidez toda com medo. Na hora do parto, ela levou um susto muito grande porque nasceram duas meninas da mesma barriga. Ela ficou apavorada e chamou o marido. Roberto ficou tão triste quando viu as crianças que o coração dele quase parou. Ele flechou as duas crianças e saiu de perto. Raimundinha sofreu muito por causa das suas filhas que morreram.

Em outra comunidade muito distante, no Mato Grosso, mora Vera com seu marido. Eles se preocupam muito com as crianças gêmeas que são enterradas vivas pelas suas mães, que é um antigo costume das pessoas desse povo. Vera sempre disse que queria ajudar essas crianças. Uma mulher de uma comunidade sabia do amor que Vera tinha pelas crianças. Um dia essa mulher engravidou e teve gêmeos. Eram dois meninos lindos, mas ela não podia ficar com eles. Ela se lembrou de Vera e avisou os parentes. Mandaram chamar Vera e lhe entregaram as crianças. Os bebês são muito bonitos e estão crescendo com saúde. Vera e seu marido estão muito alegres.

CRIANÇAS QUE SÃO FILHAS DE MÃE SOLTEIRA TÊM DIREITO DE VIVER
João nasceu numa aldeia na região do rio Xingu. Sua mãe era uma menina muito nova e ainda não tinha marido. Ela tinha muita vergonha e não queria a criança. Quando Joãozinho nasceu ela cortou o umbigo bem curtinho e enterrou o menino perto da casa. Ainda pisou em cima para socar bem a terra. Rita, uma mulher da aldeia, ficou com pena da criança. Esperou a mãe voltar para casa e desenterrou João. Conseguiu salvá-lo, mas ele ficou muito doente, até hoje. Rita gosta muito dele e o trata como filho. Joãzinho também adora sua mãe Rita. Ela não é mãe de sangue, mas é mãe também, porque salvou ele da morte.

Sandrinha teve o mesmo problema, mas ela nasceu numa comunidade no Amazonas. A mãe dela era solteira e tinha medo de enfrentar seu pai. Por isso, abandonou Sandrinha. Ela ficou jogada na mata, pegou chuva, passou frio, mas escapou de ser comida por algum bicho. Umas meninas, parentes dela, avisaram onde ela estava para um homem que trabalhava na aldeia. Dois dias depois, ele encontrou a bebezinha ainda viva. Ela foi adotada pela família desse homem e está crescendo feliz e com saúde. Passa uma parte do ano na cidade e outra parte do ano na aldeia.


(Anos antes, na primeira gravidez, a mãe de Sandrinha tinha abortado a criança. Na segunda gravidez, ela ficou muito preocupada porque seu pai ia matar o bebê assim que ele nascesse. Ela sabia que na sua comunidade jovens solteiras grávidas trazem muito desgosto para a família. Quando a hora do parto chegou, e o bebê nasceu na mata, algumas meninas tentaram escondê-lo até que alguém chegasse para salvá-lo. Infelizmente, o avô da criança chegou primeiro e matou o bebê com uma flecha.)

CRIANÇAS QUE TÊM PROBLEMA DE CABEÇA TÊM DIREITO DE VIVER
A mãe de Pedrinho era muito corajosa. O pai não assumiu, mas a mãe resolveu cuidar dele sozinha. Pedrinho estava crescendo bem, mas ela ficou triste quando viu que o menino tinha problema de cabeça. Não conseguia falar direito, andava com muita dificuldade, não entendia o que as pessoas falavam com ele. Na comunidade, todo mundo zombava dele e sua mãe sofria muito. Mesmo assim, ela não aceitou matar Pedrinho. Disse que era filho dela e que ela mesma ia cuidar. Ele cresceu e ela carregava nas costas para todo canto. Carregava quando ia para o roçado, quando ia tomar banho, ou quando ia pescar. Ele era muito pesado, mas ela carregava. Só que um dia ela ficou muito doente e morreu. Pedrinho ficou sozinho, não tinha ninguém para cuidar dele. Uma tia pegou sumo de timbó, que é uma raiz venenosa, e deu para ele beber. Pedrinho sofreu muito com dor até morrer sufocado. Ele já era quase um rapazinho quando foi envenenado pela tia. Muita gente achou errado, mas ninguém falou nada.

CRIANÇAS ESPECIAIS, QUE NASCEM COM ALGUM PROBLEMA, TÊM DIREITO DE VIVER
Paulo era filho de um grande caçador. Era gordinho e calmo, amado pelos pais e pelos irmãos. Sua mãe gostava muito dele, mas começou a ficar nervosa quando viu que ele era diferente dos outros filhos. Paulo não aprendeu a andar e nem a falar. Ficava só sentado na beira do fogo, olhando para o fogo. Quando Paulo tinha três anos nasceu sua irmãzinha. Ela era muito alegre e sua mãe lhe deu o nome de Lúcia. A tristeza da família foi muito grande quando viu que Lúcia era igual ao Paulo. Ela também não conseguia andar nem falar. Muitas pessoas na comunidade acharam que Paulo e Lúcia não eram gente de verdade. Acharam que eles eram filhos de algum espírito. As pessoas começaram a falar mal da família e a dizer que os pais deveriam dar veneno para eles, e ficar só com os filhos bons. A família de Paulo começou a ser maltratada e eles ficaram muito envergonhados. Eles amavam seus filhos e não queriam matá-los. O tempo foi passando e o problema continuava. A situação ficava cada vez pior até que um dia o pai e a mãe de Paulinho tomaram veneno e morreram. Foi uma grande tristeza na aldeia. Toda a comunidade chorou. O irmão mais velho de Paulo chorou muito. Depois do enterro dos pais ele fez um buraco do lado da casa e enterrou vivo seu irmãozinho. Lúcia eles não enterraram, mas ela sofreu muito. Passou 2 anos abandonada, passando fome e sendo muito maltratada.

A história de Lúcia mudou quando seu irmãozinho decidiu entregá-la a um casal que trabalhava na área indígena. Eles adotaram Lúcia como filha e conseguiram tratamento médico para ela. Logo ela aprendeu a andar, a falar e hoje é uma menina feliz e bem tratada. Lúcia trouxe muita alegria para seus pais adotivos.

CRIANÇAS QUE OS PAIS NÃO QUEREM CRIAR, OU NÃO PODEM CRIAR, TÊM DIREITO DE VIVER
Bené nasceu gordinha, mas sua mãe morreu logo depois do parto. O pai era muito novo e não sabia o que fazer com a menina. Entregou para uma tia. Essa tia passou para outra e assim ela ficou passando de mão em mão. Bené vivia doente e ninguém tinha condições de cuidar dela. De vez em quando, as enfermeiras ou as missionárias ajudavam um pouco, davam comida, davam remédio. Mas logo largavam ela de novo. Bené ficou abandonada mas foi crescendo aos poucos. Tinha época que não conseguia nem andar, de tão fraquinha. Começou a ser maltratada, abusada, machucada, até que não deixaram mais ela dormir dentro da casa. Tinha que dormir no mato, no escuro, sozinha. Uma vez foi jogada num formigueiro e quase morreu. As enfermeiras resolveram mandar ela para morar na CASAI, uma casa do governo onde os índios ficam para fazer tratamento médico na cidade. Ela ficou morando lá muitos anos e sofreu muito. Dentro da CASAI, ela foi muito abusada e as enfermeiras tinham que dar remédio para ela não engravidar. Depois de muitos anos, uma mulher conseguiu tirar ela da CASAI para adotar. Bené agora está sendo muito bem tratada pela sua nova mãe. Mas ela sofreu tanto que não consegue falar até hoje.

CRIANÇAS QUE O PAI É DE OUTRA ETNIA TÊM DIREITO DE VIVER
Zezinho nasceu fraquinho e meio doente. Não tinha pai e a mãe não tinha condições de cuidar dele direito. Algumas pessoas ajudavam. Às vezes, a enfermeira dava remédios, leite, bolacha. Assim ele foi crescendo e foi melhorando. Já tinha quase três anos quando a mãe ficou doente e morreu. Os parentes choraram muito, foi uma tristeza muito grande. Ninguém sabia o que iria acontecer com o Zezinho, agora que a mãe tinha morrido. Ninguém sabia quem era o pai dele. Diziam que ele era de outra etnia, de outro povo. O líder da comunidade, sem saber o que fazer com o menino, mandou enterrar Zezinho junto com o corpo da mãe. Muita gente chorou. Um parente chegou e tentou desenterrar o menino, mas ele já tinha morrido. Zezinho tinha 3 anos quando foi enterrado vivo junto com o corpo da mãe.

Quarta-feira, Abril 05, 2006

Crianças que não conseguimos salvar

AGAMIJIRU era adolescente e ultimamente só andava de cabeça baixa pela maloca. Todos na aldeia a desprezavam e zombavam dela a medida que sua barriga crescia. Jovens solteiras grávidas trazem grande desgosto a uma família suruwahá e Agamijiru sabia disso. Na primeira gravidez ela tinha conseguido abortar a criança, mas dessa vez nada tinha adiantado e a barriga crescia sem parar. Ultimamente ninguém mais falava com ela na maloca, a não ser suas irmãs mais novas. Essas sim, eram as suas companheiras, e a acompanhavam onde quer que ela fosse.

Agamijiru estava apavorada, porque sabia que seu pai iria matar o bebê assim que nascesse. Ela queria entregar o bebê a Lucília, a missionária que trabalhava na aldeia, mas sabia que seu pai não iria permitir. Quando a hora do parto foi chegando, Lucília estava longe e o pai de Agamijiru também, tinha saído para caçar. O bebê nasceu na mata e as irmãzinhas de Agamijiru tentaram escondêlo até Lucília chegar. A caminhada era longa e a corrida era contra o tempo. Infelizmente o avô da criança chegou primeiro e acertou-a com uma flecha.

NIAWI nasceu numa família importante. Filho de um dos maiores caçadores da tribo e irmão de três lindos meninos. Ele era o quarto. Isso fazia da família dele uma família muito especial – quatro filhos homens! Com certeza cresceriam e viriam a matar muitas antas para alimentar o povo, exatamente como fazia seu pai.





Mas, para a tristeza da família, Niawi não se desenvolvia como um menino normal. Aos três anos de idade ainda não conseguia andar nem falar. Apesar de ser um menino gordinho e bonito, todos percebiam que ele tinha alguma coisa errada. A tensão por conta disso aumentava e a família se sentia cada vez mais envergonhada e infeliz. Várias equipes médicas estiveram na aldeia e viram o estado da criança, mas nada podia ser feito – afinal, os suruwahá eram índios semi-isolados e o qualquer interferêcia deveria ser evitada. Pelo menos isso é o que todos pensavam. Missionários chegaram a filmar e fotografar Niawi e levar o material para mostrar a alguns médicos em São Paulo. Mas nenhum diagnóstico poderia ser feito sem ver se retirar o menino da tribo. E disso os pais tinham muito medo.


A situação de pressão só aumentava e o desgosto dos pais se tornou tão insportável que eles acabaram se suicidando quando Niawi tinha cinco anos, em 1998. Toda a tribo chorou muito a perda do grande caçador. Foram dias de luto e de canto ritual. Quando terminaram os rituais fúnebres, o irmão mais velho de Niawi lhe deu vários golpes na cabeça até que ele desmaiasse. Depois disso, segundo relatos dos familiares, Niawi foi enterrado ainda vivo numa cova rasa perto da maloca.